
Antes de se tornar um dos principais pontos de encontro do Centro de Campo Grande, a Praça Ary Coelho já foi lugar de despedida. No século XIX, quando a cidade ainda era conhecida como Arraial de Santo Antônio, a área abrigava o primeiro cemitério do povoado. Com o crescimento da comunidade, os sepultamentos foram transferidos para outras regiões, e o espaço passou a integrar o traçado urbano como praça pública. A transformação ajuda a contar a história dos cemitérios da Capital e mostra como a organização desses locais acompanhou o desenvolvimento da cidade.
A trajetória dos cemitérios públicos Santo Antônio, Santo Amaro e São Sebastião, conhecido como Cruzeiro, está ligada às mudanças na ocupação do território, à expansão dos bairros e à necessidade de adequar a infraestrutura urbana ao crescimento populacional. Atualmente administrados pela Prefeitura de Campo Grande, os três espaços também preservam registros de diferentes gerações, com túmulos, fotografias, inscrições e monumentos que ajudam a compreender a história e os costumes da população.
“Preservar os cemitérios públicos de Campo Grande é valorizar a memória e a história da nossa cidade. Esses espaços guardam lembranças de gerações que contribuíram para a construção da nossa Capital e representam lugares de respeito às famílias e à memória de cada pessoa”, destaca o secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, André de Moura Brandão.
A história do primeiro campo-santo de Campo Grande remonta à década de 1870, período de formação do povoado. Naquele momento, era comum que os cemitérios ficassem próximos às igrejas e às áreas habitadas. O espaço que hoje corresponde à Praça Ary Coelho cumpria essa função em uma comunidade ainda pequena, organizada nas proximidades dos córregos Prosa e Segredo.
Com a ampliação do povoado, a localização do cemitério passou a ser questionada. A proximidade das casas e as condições do terreno motivaram a transferência dos sepultamentos para uma área mais afastada, na região onde atualmente funcionam a Casa da Indústria e o SESI, no bairro Amambaí. Décadas depois, a expansão urbana e a necessidade de reorganizar os espaços da cidade levaram a uma nova mudança.
Entre 1913 e 1914, o cemitério foi transferido para a região da antiga Fazenda Bandeira, onde permanece o Cemitério Santo Antônio, na Avenida da Consolação. O terreno foi doado por Amando de Oliveira, figura da história política local, que também foi sepultado no local em 1914.
A mudança dos sepultamentos e a transformação da antiga área funerária em praça acompanharam o planejamento de Campo Grande no início do século XX. Em 1909, o novo traçado urbano abriu espaço para áreas públicas de convivência. O local que havia recebido os primeiros sepultamentos passou por mudanças de denominação até receber, em 1954, o nome de Praça Ary Coelho, em homenagem ao ex-prefeito da Capital.
Registros históricos apontam que os restos mortais do antigo cemitério foram removidos durante o processo de transformação da área. Assim, o espaço que hoje recebe moradores, trabalhadores e visitantes guarda uma história anterior à sua função de praça: a de um dos primeiros lugares de sepultamento do povoado que deu origem à Capital.

A história dos cemitérios públicos também acompanha a expansão de Campo Grande ao longo do século XX. À medida que a população aumentava e os espaços disponíveis para sepultamentos se tornavam insuficientes, a cidade precisou ampliar sua estrutura e organizar novas áreas destinadas a essa finalidade.
O Cemitério Santo Amaro foi criado em 1961, período em que o crescimento urbano exigia a ampliação dos serviços públicos. Localizado na região oeste da cidade, o espaço passou a receber sepultamentos de moradores de diferentes regiões, contribuindo para atender à demanda da população.
Já o Cemitério São Sebastião, conhecido como Cruzeiro, surgiu na mesma fase de expansão da estrutura funerária municipal. A área teve relação com um projeto inicialmente associado ao nome de São Francisco, mas a denominação popular Cruzeiro se consolidou entre os moradores. O local passou a ser conhecido oficialmente como São Sebastião e se tornou outro importante espaço público de sepultamento na Capital.
A criação dos dois cemitérios ocorreu em um contexto de mudanças na ocupação urbana. O crescimento de bairros e a ampliação das áreas habitadas exigiam que a administração municipal organizasse os serviços de acordo com as necessidades da população. Os três cemitérios, portanto, representam diferentes momentos da história de Campo Grande e da estruturação dos serviços públicos.

Além de sua função de receber sepultamentos, os cemitérios preservam histórias familiares e registros culturais. Túmulos, capelas, esculturas, fotografias e inscrições revelam mudanças nas crenças, nos costumes e nas formas de homenagear as pessoas que partiram.
No Cemitério Santo Antônio, por exemplo, estão sepultadas personalidades relacionadas à formação histórica e cultural de Campo Grande, como José Antônio Pereira, reconhecido como fundador da cidade, e a atriz Glauce Rocha. Os monumentos funerários e os registros presentes no espaço também ajudam a compreender diferentes períodos da história local.
A importância desse acervo também está relacionada às possibilidades de reconhecimento e preservação do patrimônio histórico e cultural. Para a gerente de Cemitérios Públicos Municipais da Sisep, Denisy Lima de Oliveira, valorizar esses espaços pode ampliar as possibilidades de atuação do poder público e envolver diferentes áreas da administração municipal.
“Preservar os cemitérios públicos de Campo Grande é manter viva a memória de quem construiu a história da nossa Capital. O reconhecimento do Cemitério Santo Antônio como patrimônio histórico, cultural e religioso também é uma estratégia importante para a gestão pública, porque abre possibilidades de buscar recursos e parcerias para a preservação desse patrimônio, envolvendo não apenas a infraestrutura, mas também áreas como cultura e turismo”, explica.
A preservação desses lugares exige trabalho contínuo. A Prefeitura de Campo Grande, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), é responsável pela administração e pela manutenção dos cemitérios públicos, com serviços relacionados à organização dos espaços, à conservação e ao atendimento das demandas cotidianas. As ações também envolvem a necessidade de adequação da infraestrutura e de atendimento às exigências ambientais aplicáveis a esses locais.
O planejamento e a gestão dos cemitérios fazem parte de um conjunto maior de responsabilidades do poder público na organização da cidade. Assim como a expansão urbana exige planejamento para ruas, bairros e equipamentos públicos, os espaços de sepultamento precisam de estrutura adequada, conservação e organização para atender às famílias e preservar as áreas utilizadas ao longo das décadas.
Nesse trabalho, os servidores desempenham funções essenciais, desde a manutenção dos espaços até os procedimentos de sepultamento e o atendimento aos familiares. A atuação exige organização, respeito e sensibilidade, especialmente porque as visitas ocorrem em momentos marcados pela saudade e pela despedida.
No Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, os três cemitérios públicos recebem pessoas que levam flores, fazem orações e cuidam dos túmulos de familiares e amigos. Os gestos, repetidos ao longo das gerações, demonstram que esses espaços fazem parte da vida da cidade não apenas pela sua função, mas também pelos vínculos e pelas lembranças que preservam.
Ao contar a história dos cemitérios Santo Antônio, Santo Amaro e São Sebastião, Campo Grande também revisita a própria trajetória: de um povoado que organizava seus primeiros espaços de sepultamento junto à área central a uma cidade que precisou ampliar sua estrutura para acompanhar o crescimento da população. Preservar esses locais é reconhecer a memória de quem construiu a Capital e valorizar o patrimônio que permanece presente no cotidiano de seus moradores.
Campo Grande - MS CG Tech Day: especialistas abordam IA e mercado de trabalho em tecnologia
Campo Grande - MS Ônibus terão horários especiais nesta segunda-feira na Capital
Campo Grande - MS Dia de Finados: confira os horários e a programação dos cemitérios Mín. 24° Máx. 35°